
Sexo até ao fim
"Me ajuda ”, implorou nos últimos catorze dias da sua existência a brasileira Verli Vitória Casonatto, internada no Hospital de São Teotónio, em Viseu, ao homem que a legalizou em Portugal, dono de uma agência funerária e sua única visita diária na unidade hospitalar.
Na certidão de óbito, a causa da morte ficou sombriamente impressa: Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. O homem que nos últimos cinco anos sempre a ajudara nada pôde fazer, ela finou-se debilitada como um passarinho, uma sombra da brasileira que vendia sexo a troco de dinheiro.
A vida da brasileira de Sarandi muda. Sem homem que a estorve ou lhe fique com dinheiro, Verli trabalha em Viseu, arranja clientes.
Ao contrário da maioria das suas conterrâneas, vive sozinha num apartamento. Em Novembro de 2003 coloca nos jornais o primeiro anúncio – assumia a personagem fatal, numa alusão à origem da sua família. “A atrevida italiana loira espera-te para momentos escaldantes” faria sucesso.
Os anos passam, alguns clientes ficam – “havia um homem que vinha de França para passar uma semana com ela, chegava a pagar-lhe mil euros”.
O negócio prospera. Quando lhe apetece, Verli Vitória faz as malas e vai trabalhar para o estrangeiro. No início deste ano foi à Suíça e a Espanha.
A sua vida é movida ao som do que factura. “Tudo o que ganhava, amealhava”, diz o agente funerário que gaba o espírito poupado e empreendedor da amiga. “Era uma mulher de armas capaz de fazer andar para a frente qualquer negócio. Metia uma coisa na cabeça e ninguém lha tirava.”
Apesar de lhe admirar a vontade de ganhar dinheiro, também ele estranha a louca correria dos últimos oito meses: Viseu-Algarve-Viseu-Algarve-Viseu até à morte.
Mas a morte chegou de mansinho, sem que os mais próximos dessem por ela. Nos últimos meses, Verli só se permitia queixar de dores de cabeça e dizer que tomava comprimidos para dormir.
Quando deu entrada no hospital, para não mais sair, ao médico que a viu disse que não se prostituia há meio ano. Ela tinha regressado do Algarve há dias, tinha colocado o último anúncio há um mês.
Nos dias que se seguiram à sua morte, o agente funerário andou a remoer, com a cabeça cheia de dúvidas. Se ela nem sempre usava preservativo e com ele sempre o fez, se ela sabia que estava doente, então quis preservá-lo da infecção. Se ela sabia que tinha sida porque continuava a trabalhar? Porque continuava a insistir num modo de vida que era uma arma mortífera? A sua cabeça balança entre a ignorância de Verli sobre o seu estado de saúde e a bondade dela que sabendo lhe deu, na sua opinião, a maior prova de amizade.